domingo, 18 de novembro de 2012

CYPRIAN NORWID - O Piano de Chopin



 A Antoni C...

La musique est une chose étrange!
Byron

L‘ art? ... c’ est l’ art — et puis, Voilà tout.
Béranger

I

Estive em tua casa nos penúltimos dias
Da trama sem desfecho – –
– Cálidos,
Como o Mito, pálidos,
Como a aurora... Quando o fim da vida sibila ao começo:
“N ã o  t e  r o m p e r i a  e u  –  n ã o  –  E u,  t e  r e-a l ç a r i a!...”

II

Estive nesses dias, penúltimos, em tua
Casa, e parecias – de novo e de novo então –
A lira que Orfeu chegado o instante
Rejeita, mas que forçada-forceja pela canção,
E ainda vibra relutante
As suas
Cordas: duas – mais duas –
E pulsa:
“A s s o m o
D o  s o m?...
S e r á  t a l  M e s t r e!...  q u e  t o c a...  m a l g r a d o  a  r e p u l s a?...”

III

Estive em tua casa nesses dias, Frederico!
E tua mão... assim
Tão clara – e leve – rico
Alabastro e espasmos de pluma –
Mesclava-se com as teclas numa
Névoa de marfim...
E eras a forma que ressuma
Do ventre do mármore,
Antes de esculpida,
E revida
Ao cinzel do Gênio – Pigmalião que nunca morre!

IV

E no que tocaste – quê?disse o tom – quê? dirá, mas a cor de
Um eco escoa a esmo,
Não como abençoavas, tu mesmo,
A cada acorde –
E no que tocaste: tal foi a rude
Perfeição Pericleana,
Como se antiga Virtude,
No umbral duma choupana
De lariço, a si
Mesma dissesse: “R e n a s c i
  N o  C é u,  e  a  p o r t a  –  s e  i r m a n a
  À h a r p a,  a  v e r e d a  –  à  f a i x a...
  V e j o  u m a  h ó s t i a  –  a t r a v é s  d o  t r i g o  s e m  c o r...
  E m a n u e l  j á  s e  a c h a
  N o  c i m o  d e  T a b o r!”

V

E nisso era a Polônia, retesa
Desde o zênite da História dos
Homens, num arco-íris de êxtase – –
A Polônia – d o s  f e r r e i r o s  t r a n s f i g u r a d o s!
Ela mesma, adorada,
Abelhi-dourada!...
(Mesmo ao cabo do ser – eu teria certeza!...)

VI

E – eis aí – cantaste – – e não mais te alcança
O meu olhar – – mas ainda ouço:
Algo?... como rusga de crianças – –
São porém as teclas em alvoroço
Pelo anseio da canção que não se fez:
E arfando convulsas,
Oito – cinco por dez –
Murmuram: “E l e  s e  p ô s  a  t o c a r?  o u  n o s  r e p u l s a??...”

VII

Tu! – perfil-do-Amor,
Que tens por nome P l e n i t u d e;
Isto – que na Arte atende por
Estilo, porque permeia a canção, urde
As pedras... Tu!  –  E r a, como a História soletra,
E onde o zênite da História não investe,
Chamas-te a um só tempo: o  E s p í r i t o  e  a  L e t r a,
E “consummatum est”...
Tu! P e r f e i t a-c o n s u m a ç ã o, seja o que
For, e onde?... Teu selo...
Em Fídias? Chopin? Davi?
Na cena de Ésquilo? Em ti
Sempre – se vingará: o ANELO!...
– A marca desse globo – carente:
A  P l e n i t u d e?... o fere!
Ele – prefere
Começar e prefere lançar o sinal – mais à frente!
A espiga?... madura feito um cometa fugaz,
Mal sente
A brisa a tocá-la, chove sementes
De trigo, a própria perfeição a desfaz...

VIII

Eis aí – olha, Frederico!... é – Varsóvia:
Sob a estrela que flameja,
À luz que, insólita, envolve-a – –
– Olha, os órgãos da Igreja;
Olha! Teu ninho: ali – os sobrados
Patrícios velhos como a P u b l i c a-r e s,
O chão surdo e pardo
Das praças, e a espada de Segismundo nos ares.

IX

Olha!... nos becos os potros
Do Cáucaso irrompem
Como andorinhas defronte das tropas, ao sopro
Da tempestade; c e m  –  o u t r o s
C e m  – –
O fogo fulge, hesita, infesta
O prédio – – e eis aí – contra a fachada
Vejo testas
De viúvas empurradas
Pelo cano
Das armas – – e vejo entre a fumaça no gradil
Da sacada um móvel como um caixão erguerem... ruiu...
Ruiu – T e u  p i a n o!

X

Ele!... que exaltava a Polônia, tomada
Desde o zênite da História dos
Homens, no êxtase da toada –
A Polônia – dos ferreiros transfigurados;
Ele mesmo – ruiu – no granito da calçada!
– E eis aí: como o nobre
Pensamento é presa certa
Da fúria humana, o u  c o m o  –  s é c u l o  s o b r e
S é c u l o  –  t u d o,  q u e  d e s p e r t a!
E – eis aí – como o corpo de Orfeu,
Mil Paixões rasgam dementes;
E cada uma ruge: “E u
N ã o!...  E u  n ã o” – rangendo os dentes –


Mas Tu? – mas eu? – que surda
O canto do juízo:“A l e g r i a,  n e t o s  q u e  v i r ã o!...
G e m e u  –  a  p e d r a  s u r d a:
O  I d e a l  –  a t i n g i u  o  c h ã o – –"

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