sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Cem anos de “Eu” Augusto dos Anjos



Nesse ano, faz um século que o paraibano Augusto dos Anjos lançava, com a ajuda financeira do irmão, Odilon, o seu único livro “Eu”, uma das obras mais importantes do século passado e a mais estranha da poética brasileira, sem sombra de dúvidas.

Augusto era um poeta de difícil leitura. Não “poetizava” seus versos. Não tinha versos bonitinhos, apesar de seus sonetos serem rigorosamente parnasianos esteticamente, pela perfeição métrica e sinuosidade das rimas, sua temática era delirante, muito além dos simbolistas, com quem é alinhado por alguns estudiosos, dos Anjos cantava a morte, decomposição do corpo a tristeza e a tragédia de viver.

Abaixo, um dos mais representativos poemas do escritor:


Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera. 
Somente a Ingratidão — esta pantera — 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija! 

3 comentários:

  1. Caramba...que peso!Dá para sentir o tormento da intimidade de sua mente, a ausência de luminosidade em sua vida.

    Amor, prefiro os versos bonitinhos...:)

    Beijos, minha vida!

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  2. O meu Poeta favorito. Dizem que ele é um poeta para adolescentes, pelo modo que escreve, por ser um poeta extravagante e revoltado, mas digo que ele é o poeta mais completo, ele dá voz ao indizivel, vida aos não viventes e significados as coisas superfluas. Palavras são insuficientes para descrever um poeta incrível como o nosso eterno Augusto dos Anjos. Este soneto se estrutura a parti da metáfora quimera, que pode se chamar de sonho, utopia... Este soneto é um desafio para o leitor, por seguir vias ocultas e evidencia um eu lirico inconformado com a putrefação da humanidade, da falta de amor humano, além de fazer analogia ao beijo de judas em Jesus, em que o beijo que Jesus é traido pelo beijo do amigo. Abraços!

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  3. Falou e disse, Branka!

    Obrigado pela visita!

    Um abraço!

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