segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Inquilino - 1976 - Roman Polanski


O Doppelgänge, ou, simplesmente, o duplo, é um dos temas mais utilizados e mais consagrados nas artes, principalmente na literatura e no cinema, em todos os tempos. Escritores como Stevenson, Borges, Dostoievski e Poe criam verdadeiros clássicos com essa temática. No cinema, os exemplos mais icônicos são: o poético “A Dupla Vida de Veronique” do mestre Kieslowski, o clássico expressionista “Estudante de Praga”, filme que teve duas versões: uma de 1913 e a melhor em 1926, estrelada pelo maravilhoso Conrad Veidt, e O Inquilino de 1976, pequena obra-prima sinistra de 1972 arquitetada pelo grande Roman Polanski e objeto de estudo deste humilde post.

No filme, conhecemos o polaco Trelkvsky (o próprio Polanski em interpretação alucinada), um burocrata de uma companhia de seguros que está à procura de um lugar para morar. Ele encontra um apartamento perfeito, porém para vir a morar lá, precisa esperar que se decida a morte da antiga dona, uma moribunda chamada Simone Choule, que tentou matar-se pulando deste mesmo apartamento.

Com a morte de Simone, Trelkovsky vai morar no apartamento. No entanto, o jovem começa a ficar obcecado pela antiga moradora e passa a acreditar que seus vizinhos estão conspirando para que ele se torne o inquilino anterior, com o objetivo de levá-lo também ao suicídio. O homem fica tão obcecado que começa a destruir sua personalidade e começa a se ver como o seu duplo espiritual, ou seja, passa a se ver como a Simone.

O filme é um prato cheio para os amantes das teorias psicanalíticas. Em um dos diálogos mais emblemáticos do filme, vemos Trelkvsky embriagado: Diz-me, em que preciso momento é que um indivíduo deixa de ser o que pensa que é? Cortas-me o braço. Digo ‘Eu e o meu braço’. Cortas-me o outro braço. Eu digo ‘Eu e os meus dois braços’. Tu tiras-me o estômago, os rins, presumindo que isso era possível e eu digo, ‘Eu e os meus intestinos’. E, agora, se me cortares a cabeça, eu diria ‘Eu e a minha cabeça’ ou ‘Eu e o meu corpo’? Que direito tem a cabeça de se apelidar eu mesmo?
Foda, não?

Completam ainda o elenco: Isabelle Adjani (Stella), inacreditavelmente feia, Melvin Douglas (Monsieur Zy), Jo Van Fleet (Madame Diouz) como os vizinhos sinistros que enlouquecem Trelkovsky. A atordoante fotografia de Sven Nykvist utilizando de sombras e tons escuros transformam o filme em uma experiência angustiante.  
O filme fecha com “chave de ouro” a “Trilogia dos Apartamentos” do diretor, inaugurada em 1965, com o genial “Repulsa ao Sexo”, seguido pelo excepcional o “Bebê de Rosemary” de 1969.     

2 comentários:

  1. Amigo, em todos os sites que visitei o filme "O Inquilino" data do ano de 1976. A data que consta no seu artigo (1972)está correta???

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  2. Cara Luiza,
    Realmente, me enganei na data.
    A correta e 1976.
    Obrigado pela correção.
    Já arrumei no texto.

    Abraço!

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