quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Janela do caos - Murilo Mendes

1

Tudo se passa

Em Egitos de corredores aéreos

Em galerias sem lâmpadas

À espera de que Alguém

Desfira o violoncelo

- Ou teu coração?

Azul de guerra.

2

Telefonam embrulhos,

Telefonam lamentos,

Inúteis encontros,

Bocejos e remorsos.

Ah! Quem telefonaria o consolo.

O puro orvalho

E a carruagem de cristal.

3

Tu não carregaste pianos

Nem carregaste pedras.

Mas na tua alma subsiste

- Ninguém se recorda

E as praias antecedentes ouviram -

O canto dos carregadores de pianos,

O canto dos carregadores de pedras.

4

O céu cai das pombas.

Ecos de uma banda de música

Voam da casa dos expostos.

Não serás antepassado

Porque não tiveste filhos:

Sempre serás futuro para os poetas.

Ao longe o mar reduzido

Balindo inocente.

5

Harmonia do terror

Quando a alma destrói o perdão

E o ciclo das flores se fecha

No particular e no geral:

Nenhum som de flauta,

Nem mesmo um templo grego

Sobre colina azul

Decidiria o gesto recuperador.

Fome, litoral sem coros,

Duro parto da morte.

A terra abre-se em sangue,

Abandona o branco Abel

Oculto de Deus.

6

A infância vem da eternidade.

Depois só a morte magnífica

- Destruição da mordaça:

E talvez já a tivesse entrevisto

Quando brincavas com o pião

Ou quando desmontaste o besouro.

Entre duas eternidades

Balançam-se espantosas

Fome de amor e a música:

Rude doçura,

Última passagem livre.

Só vemos o céu pelo avesso.

7

Cai das sombras das pirâmides

Este desejo de obscuridade.

Enigma, inocência, bárbara,

Pássaros galopando elementos

Do fundo céu

Irrompem nuvens eqüestres.

Onde estão os braços comunicantes

E os pára-quedistas da justiça?

Vultos encouraçados presidem

À sabotagem das harpas.

8

Que esperam todos?

O vento dos crimes noturnos

Destrói augustas colheitas

Águas ásperas bravias

Fertilizam os cemitérios.

As mães despejam do ventre

Os fantasmas de outra guerra.

Nenhum sinal de aliança

Sobre a mesa aniquilada

Ondas de púrpura

Levantai-vos do homem

9

Penacho da alma,

Antiga tradição futura:

?Se a alma não tem penacho

Resiste ao Destruidor?

10

A velocidade se opõe

À nudez essencial.

Para merecer o rompimento dos selos

É preciso trabalhar a coroa de espinhos.

Senão te abandonam por aí,

Sozinho, com os cadáveres de teus livros.

11

Pêndulo que marcas o compasso

Do desengano e solidão,

Cede o lugar aos tubos do órgão soberano

Que ultrapassa o tempo:

Pulsação da humanidade

Que desde a origem até o fim

Procura entre tédios e lágrimas.

Pela carne miserável,

Entre colares de sangue,

Entre incertezas e abismos;

Entre fadiga e prazer.

A bem-aventurança.

Além dos mares, além dos ares,

Desde as origens até o fim,

Além das lutas, embaladores,

Coros serenos de vozes mistas,

De funda esperança e branca harmonia

Subindo vão.

Um comentário:

  1. Uaaaau!
    Quantas sensações!
    De cara:liberdade.Passando para uma angúsia,seguida de solidão.Para enfim,sentir um desconfortável desconsolo...
    Amor,que forte!Não é à toa que este seja o seu escritor favorito...

    Beijos de amor incomparável!

    ResponderExcluir