terça-feira, 9 de novembro de 2010

Monteiro Lobato e o politicamente incorreto


“ timeo hominem unius libri”
Tomás de Aquino

“Um país se faz com homens e livros”
Monteiro Lobato

O que se espera de um órgão do governo chamado Conselho Nacional de Educação, que tem como uma das suas atribuições “zelar pela qualidade do ensino” entre tantas outras coisas igualmente importantes? Alguma medida efetiva para o melhoramento do nível do ensino no país que, como todos sabem, é uma de nossas  maiores tragédias  - já seria muito bem vinda. Os nossos caros amigos que lá labutam, entretanto, parecem mais interessados em, autoritariamente, censurar livros e indicar o que as pessoas podem ou não ler.

É verdade, meus amigos! Voltamos para a década de 60, onde o governo intervinha e escolhia o que era saudável para os estudantes lerem. Se naquela década as peças do Plínio Marcos, as músicas do Chico Buarque, os livros do Rubem Fonseca e os filmes do Glauber Rocha tinham potencial subversivo e levariam a nossa juventude para o lado esquerdo da força, hoje em dia a patrulha do politicamente correto fiscaliza e dita o aceitável e agradável para a sociedade. Esses chatos da liga dos bons costumes e guardiões da moral fizeram sua mais nova vitima: o politicamente incorreto, Monteiro Lobato.

Não é brincadeira não, caros amigos, aquele mesmo escritor que criou um universo mágico e maravilhoso do “Sítio do Picapau Amarelo” que divertiu, fecundou a imaginação e ensinou crianças de várias gerações- inclusive esse que vos escreve.
Os respeitáveis cidadãos do CNE recomendaram que o livro “Caçadas de Pedrinho”, escrito por Lobato 1933, fosse banido das escolas públicas. Ou apresentasse notas explicativas alertando sobre a presença de “estereótipos raciais. Nossos amigos viram conteúdo racista na citada obra.

Os palermas do bem fizeram uma analise superficial do papel da literatura que, evidentemente, não tem a obrigação de passar conceitos morais para ninguém, mas sim - entre outras coisas - desenvolver o pensamento crítico, mergulhando em assuntos polêmicos e não fugindo deles. Também erraram ao não contextualizar a obra com os costumes e com a época em que foi escrita.

Eu sou veemente contra qualquer forma de racismo, mas uma coisa é estudantes escreverem frases racistas no twiter xingando os nordestinos por votarem na Dilma - esses sim, devem ser julgados e punidos - outra é um escritor dar voz a uma personagem de outra época que manifestava o censo comum do seu tempo. Quem perde com essa tresloucada celeuma autoritária são os estudantes enquanto leitores e o Brasil enquanto democracia.

Um comentário:

  1. É a chance de pegar esse texto e interpretá-lo sob as lentes da época em que foi escrita e estimular uma crítica dos estudantes,com discussões sob a luz dos nossos dias...seria mais proveitoso,não?

    Beijos,meu amor!

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