terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

El – O Alucinado – Luis Buñuel/1953


Filme menos conhecido, mas não menos genial, do mestre na sua fase mexicana, “El” narra à história de autodestruição de Francisco Galvan (Arturo de Córdova, em interpretação primorosa), homem culto, abastado e respeitado que vai perdendo a sanidade e sendo vencido por monstros interiores a custa de um ciúme patológico de sua esposa, a bela e elegante Gloria (Delia Garcés).

Escrito por Buñuel em parceria com Luís Alcoriza, o roteiro foi baseado em romance homônimo da escritora espanhola Mercedes Pinto, porém a proximidade do universo Buñuelesco evidência que se não total a autoria do filme ao diretor e ao seu colaborador, uma participação bem substancial.

O filme começa em uma igreja (um dos alvos preferidos do diretor) em uma cerimônia de lava-pés, onde sutilmente vemos Dom Francisco deleitar-se com os ritos da cerimônia. Fetichista, segue olhando para os pés das pessoas e se apaixona pelos de Gloria. A jovem que estava comprometida com Raul (Luís Beristáin), um amigo de Francisco, é ardilosamente e envolvida e cede aos encantos do primeiro e acabam se casando.

Já na primeira noite juntos, Francisco mostra quem é. Um homem desequilibrado com oscilações de humor que o levam de comportamentos violentos até choros incontroláveis. Ai partir daí, vemos o inferno que vira a vida de Gloria. Desacreditada por todos fica completamente a mercê das maldades e da loucura de Francisco.

Como em seus melhores filmes, a trama serve de apoio para o diretor tecer sua critica tenaz as instituições e convenções consagradas pela sociedade. Desta vez sua metralhadora simbólica ataca principalmente a burguesia e a família, com suas ilusões, hipocrisias, aparências e moralismos. Tudo isso, é claro, sutilmente propagado com uma fúria latente e um humor nervoso.

A crueldade, outro dos temas preferidos do espanhol, também da às caras pelo filme. A tortura física e psicológica infligida a Gloria por Francisco ecoa em outras obras do mestre. Francisco lembra muito Archibaldo de La Cruz e Dom Jaime (protagonistas, respectivamente de Ensaio de Um Crime e Viridiana). Eles afundam no amor obsessivo e controlador, embora sejam cidadãos respeitados dentro da comunidade.

No filme vemos também a famosa cena em que Francisco, já completamente insano, planeja prender Gloria no quarto e costurar sua vagina. A seqüência é uma das mais intensas e nervosas da historia da Sétima Arte. Dá para imaginar a cara das pessoas nos anos 50 quando viam esse filme?

Os delírios de Francisco são os aspectos surreais do filme, seu caminhar em ziguezague e suas alucinações mostravam a fragilidade de sua saúde mental. Jaques Lacan, que sempre foi próximo aos surrealistas, apresentava sessões do filme aos seus alunos.

Vale ainda ressaltar a magnífica fotografia do mestre Gabriel Figueroa, virtuosa e cheia de contrastes e a trilha sonora meio noir (incomum nos filmes do diretor) de Luis Hernández Bretón carregam ainda mais em suspense e drama o filme.

El, O alucinado era um dos filmes prefiridos de Buñuel. E apesar de em alguns momentos flertar com o melodrama,  coisa incomum à filmografia do mestre, é ainda sim um trabalho relevante e grande representante da obra do maior cineasta que esse olhos cansados já viram.

5 comentários:

  1. Hummmm...que honra ter podido compartilhar esse clássico ao seu lado,meu amado!
    Filmão!O cara é doido de ciúme!A mocinha uma bonequinha,com cabelos ondulados,uma coitadinha...Fez uma troca muito mal sucedida!rsrsrsrs

    Macabro o final no mosteiro...mas bem de acordo com o todo!
    Adorei!

    Beijos em preto e branco!Totalmente noir...da sua Gam

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  2. A honra foi minha, moça bonita!
    Obrigado pelas revisões.

    Beijos expressionistas para você, minha estrela principal!

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  3. Amado meu...esse comentário é ,na verdade,sobre as fotos do Sebastião Salgado...
    Parabéns por colocá-las aí,pena que não exista um espacinho próprio para comentá-las.
    Poucos além dele possuem a capacidade de retratar com tamanha sensibilidade a miséria da humanidade...Rugas pronunciadas,olhares famintos de comida e de atenção...abandono.É cruel,mas é realidade.
    Amo sua sensibilidade e o seu coração bondoso!

    Beijos da sua eterna namorada...
    Gam

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  4. Hello Eraserhead :)

    i love Stone Roses
    i love Morrissey
    i love Salvador Dali

    gudnite!

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  5. Hello, Indira ...

    You have a good feeling about art!
    I love these artists too.
    Thank you for visiting my blog.
    Always enjoyed. You will always be welcome!

    Eraser

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