domingo, 24 de janeiro de 2010

Adélia Prado - A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Um comentário:

  1. Que belíssimo texto!Retrato de um romantismo atemporal...a mocinha cheia de ilusões dentro do coração da mulher madura...Delicadeza ao pé da letra...

    Beijos explodindo de emoção,amor meu!

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