segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Fita Branca / 2009 - Michael Haneke



A visão que o diretor austríaco Michael Haneke tem da humanidade não é das mais animadoras e nem das mais confortáveis. Seus filmes são um mergulho impactante nas camadas mais obscuras da personalidade humana. Todos os mantos e as máscaras sociais são desmontados na frente da sua câmera, o homem, tanto individualmente como coletivamente é reduzido a sexo e estômago. Foi assim com seu ultraviolento “Violência Gratuita” (Funny Games de 1997), o demolidor “O código desconhecido” (Code Inconnu - Récit Incomplet de Divers Voyages de 2000), com o seu filme de amor sado-masoquista "A professora de piano" (La Pianiste, 2001) e o intrigante Cachê de 2005.
Entretanto, Haneke tem um grande diferencial para a maioria dos cineastas modernos que compartilham esse mesmo niilismo quanto ao ser humano: o austríaco consegue extrair poesia dessa temática. Não uma poesia bonitinha e colorida, mas uma que espanta e incomoda.

A fita branca” (Das weisse band) de 2009, mais novo trabalho do diretor, tem tudo isso é mais um pouco. A narrativa se passa em um povoado prussiano no inicio do século passado, mas exatamente em 1913 - ano que precede o início da Primeira Guerra Mundial - e é um estudo para a natureza maléfica do homem. O filme não é somente uma alegoria para a formação da origem do mal daquele país que protagonizou uma dos episódios mais sangrentos e bárbaros da história moderna, o nazismo e suas consequências, mas para a humanidade em geral.

O filme se passa em uma aldeia alemã que tira a subsistência na agricultura, seus habitantes têm a vida regida pelos severos preceitos morais do puritanismo protestante e as relações são dadas de maneira vertical e autoritária entre os pais e os filhos; entre os homens e as mulheres e entre os aristocratas e os camponeses.

A narrativa se da através de um jovem, o professor da vila, que vai investigando e relatando os misteriosos e cruéis atos que se passam naquele fatídico verão, transformando a rotina de todos os habitantes da vila e instaurando o medo na comunidade. O próprio narrador avisa que não têm certeza de todos os fatos e sua investigação se torna inútil, a passo que ele não descobre a identidade dos agressores, mas a mensagem de Haneke é clara: a maldade está ao alcance de todos e é fruto de fatores como a repressão (seja ela de qualquer forma), intolerância e o autoritarismo. A caracterização das crianças da vila no filme é bárbara, por um lado são irritantemente cordiais e atenciosas, por outro são diabólicas e cruéis. Haneke negou ser uma personificação da formação daqueles que viveram na época do nazismo apesar da história se desenvolver na Alemanha e a época coincidir, mas dotado de sutileza e inteligência, Haneke, não induz e não decreta nada, apenas faz o espectador pensar a respeito.


A estilosa e bem cuidada fotografia em preto & branco e a quase ausente trilha sonora – possa estar enganado, mas no filme só há músicas incidentais – contribuem para o clima opressivo do filme. Bem como a direção de arte perfeita e a direção de atores competente (destaque especial para as interpretações infantis) contribuem para a sua elegância. Há ecos de “O Ovo da Serpente” de Bergaman no filme, mas a crueza de Haneke e mais severa e direta. A fita branca é uma obra prima da maldade e da crueldade!

O Filme venceu a palma de ouro em Cannes esse ano e está sendo exibido na mostra internacional de São Paulo. Não pretendo ver muitos filmes esse ano na mostra, mas já tenho a minha listinha e duvido que outro filme desse ano me surpreenda mais que esse aqui.

Filmão!



2 comentários:

  1. Amor meu...que filme!!!
    Foi uma grata surpresa,ver um filme tão bem feito,mesmo sendo tão denso que poderíamos cortá-lo um machado...Poético,pesado,mas maravilhoso!
    É daqueles que nos deixa a pensar durante um tempo,em silencio,ao sair da sala de projeção...

    Maravilhoso foi assistí-lo ao seu lado...

    Beijos vertiginosos...

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  2. Gambs, que ínicio se mostra, não!?
    Logo no primeiro dia dois baita filmes!
    A última sexta-feira foi perfeita: bons filmes e sua compannhia. Foi tudo de bom!

    Beijos com pipoca(sem manteiga) para você, minha heroina!

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