segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Boca do Poeta - um poema para Manoel de Barros

"O poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina"
(Manoel De Barros)

Na boca do poetas vivem idéias
Que sonham serem verdadeiras:
Doces feitos de amoníaco e carne decomposta,
Macias como uma saudade ígnea
Que sofrem a ilusão da pérola.

A boca do poeta inventa auroras;
Nascimentos de estrelas;
Caixas que guardam o nada;
Roupas de gala para insetos;
E por afim, apocalipses em tecnicolor.

A boca do poeta é astuta,
E desengole pestes que bailam.
Aplica golpes de capoeira,
E dança tango com o universo
Ao som de uma música que nunca nasceu.

A boca do poeta não arruma dinheiro,
Ou ensina os meninos natimortos a rezarem.
Não decreta a medida quântica.
Não destila a ética, nem adocica a moral.
Mas cria a fumaça do açúcar, matéria essa que inventa o medo, a dor e o amor.

A língua do poeta arde refrescantemente.
Como o abraço de uma estrela imortal.
É lar de besouros, batráquios e formigas,
Seres que falam a língua das águas.

A Boca do poeta, por fim,
Cria desfile de imagem translúcidas.
Inventa a palavra esquecida
Que tenta explicar o nada falando tudo,
Ou que explica tudo falando nada.

O poeta jamais acredita em sua boca!

Roberto Valerio Jr.

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