segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Augusto dos Anjos - 2 sonetos

Volúpia imortal
Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!

Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!

Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descamados,
Em convulsivas contorções sensuais,

Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!

Pecadora

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,
A chama cruel que arrasta os corações,
Os seios rijos eram dois brasões
Onde fulgia o simblo do Pecado.

Bela, divina, o porte emoldurado
No mármore sublime dos contornos,
Os seios brancos, palpitantes, mornos,
Dançavam-lhe no colo perfumado.

No entanto, esta mulher de grã beleza,
Moldada pela mão da Natureza,
Tornou-se a pecadora vil. Do fado,

Do destino fatal, presa, morria
Uma noute entre as vascas da agonia
Tendo no corpo o verme do pecado!

2 comentários:

  1. Nossa..sensualidade pura!
    Pensar que o assunto devia enrubescer até mesmo o mais ousado cavalheiro da época...O que dizer então das damas que trancavam seus desejos sob sete chaves,sob a pena de terem sua reputação atirada à lama?...rsrsrsrs

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  2. Augusto dos Anjos foi um dos grandes poetas da língua portuguesa, meu amor...ele faz parte daqueles artistas que as amarras do tempo não prendem. Realmente, Gambs, o poemas e sensualidade pura. Nada escapa dos seu olhos heim!?

    Beijos para você, amor...

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