segunda-feira, 6 de julho de 2009

Underground: Mentiras de Guerra - 1995


"Era uma vez um Pais..."
Dessa forma começa o filme "Underground" do multi-premiado cineasta bósnio-herzegovino Emir Kusturica. Ao escolher essa máxima introdutória das fábulas antigas, o realizador já alerta o espectador e o prepara para mergulhar nesse universo poético, onírico e surreal onde guerras e festas acontem o tempo todo, e às vezes até ao mesmo tempo.

O filme cobre o período dos últimos 50 anos do século passado da história da sofrida Iugoslávia. A primeira parte se passa em 1941, início da invasão nazista, a segunda mostra a o estabelecimento do regime comunista até a morte do líder comunista Josip Broz TITO (1980) até chegar ao seu clímax, nas guerras civis e separatistas no início dos anos 90.

Na primeira parte conhecemos Markus (Miki Manoljovic) e Crni (Lasar Rostowski), dois revolucionários fanfarrões que vivem de roubos para comprar armas para conter a invasão nazista, mas que não dispensam uma boa farra, ainda mais se tiver mulher, jogatina, brigas e bebidas. Os dois são grandes amigos, porém possuem naturezas opostas, Markus é o oportunista, que a ter uma chance de se dar bem, vai abraçá-la, enquanto Crni é o revolucionário idealista e ingênuo.

Apesar de ser casado e de sua esposa estar grávida, Crni é apaixonado por Natalija (Mirjana Jokovki) uma jovem atriz de teatro volúvel e interesseira que não mede esforços para se dar bem. Ela da corda à paixão de Crni pensando nos presentes que vai ganhar do revolucionário, como alimenta a admiração de Franz um jovem oficial nazista, e tem uma queda pelo cafajeste Maukus. Depois de sofrer uns ferimentos com uma granada, Crni e uns tantos amigos vão para um porão gigantesco fabricar armas para a guerra e deixa Markus como o único contato com o mundo real.

A segunda parte se passa 20 anos após a primeira, em pelo domínio comunista no país. Markus agora é um herói de guerra reconhecido e homem de confiança de Tito e casado com Nataljia, a Primeira-Dama do teatro daquele pais. Porém, à surdina continua mantendo seus amigos no porão fabricando armas para ele vender no mercado negro. O ex-revolucionário faz de tudo para manter os amigos trabalhando enclausurados, alega que a guerra não terminou e está quase sendo vencida, simula toque de aviso de bombardeiro e diminui a velocidade do único relógio do porão.

No final dessa segunda parte, há uma festa de casamento do filho de Crni, cuja noiva vem flutuando como um quadro de Chagal. Crni, cansado de esperar a autorização de Markus para se juntar a armada para vencer os nazistas, foge do porão com seu filho que acaba falecendo. Markus ainda explode o porão com todas as pessoas dentro e foge.

A terceira e última parte a ação se move para 2001, Markus e Nataljia são dois contrabandistas de armar procurados em todo o mundo. Ao tentarem vender armas no seu pais de origem, são pegos por homens de Crni, que agora é um general nas guerras separatistas, e são executados. Crni, ao tomar conhecimento das identidades dos contrabandistas, perde o pouco de sanidade que lhe resta. Chora no chão perdido pela ausência do filho (que morrerá no final da segunda parte) e dos amigos.

Apesar do enredo sombrio e pesado, o aspecto fantástico que permeia a filme quebra essa dureza. Tudo é contraditório e desses opostos que nasce a poesia do filme: A alegria das festas e amargor da guerra, o idealismo inocente de Crni e cafajestismo oportunista de Markus, a dureza da realidade com do delírio anestesiante e o drama rasgado e a comédia absurda, tanto que o filme mostra dois finais. Em um vemos Crni enlouquecido em uma Zagreb destruída em frente a um crucifixo de ponta cabeça (uma estatua quebrada em uma praça) e aos copos em chamas de Markus e Nataljia rodando em uma cadeira de rodas, o verdadeiro inferno na terra. O segundo final, vemos todos juntos no além, festejando eternamente...

Há ecos em todo filme da maior influência de Kusturica como realizador, Frederico Fellini. Desde o surrealismo mágico e poético das situações, passando pelas personagens incomuns até a trilha sonora circense que remete às magistrais compostas pelo Nino Rota, habitual colaborador de Fellini.

E por falar em trilha sonora, a desse filme é um espetáculo! Descopanssada e frenética ela é parte importante de filme dando apoio ao visual caótico e rococó do filme. Uma perfeita simbiose de musica e ação! Composta por "Goran Bregovi”, antigo colaborador do diretor (Vida Cigana e Arizona Dream), mistura o circense do Nino Rota ao excentrismo da música folclórica dos Bálcãs.

O filme ganhou a “Palma d´our" em Cannes em 1996 e é um dos melhores momentos do cinema contemporâneo. Uma alegoria de múltiplas leituras que retrata com muito humor e sensibilidade a grande loucura da humanidade que são suas guerras. Cinema com "C" maiúsculo!

Crni e Markus matando o jantar ao som da banda

Crni, Nataljia e Markus. Triângulo Amoroso

Crni e seus compratiotas no porão

2 comentários:

  1. Ah, mas ele é mesmo todo guerras e festas, né?! Adoro sua originalidade, sua profusão de idéias e cenas surreais... Já viu "A Vida é um Milagre", de 2004? Maravilhoso, menino!

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  2. Olá, Kika...

    É difícil paa mim falar dos filmes do Kusturica sem parecer um fã, pois adoro cada um deles. A Vida é um Milagre, apesar de ter recebido um recpção fria pela crítica quando saiu, é um filme maravilhoso mesmo.

    bj

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