sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ferreira Gullar

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?

4 comentários:

  1. É ótimo isso.. O Fagner cantou esse poema (como fez com Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Forbela Espanca). E até que é bom!

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  2. Poxa, não conheço essa versão...Eu conheço as que ele fez da Espanca e do Pessoa. Vou procurar na internet...
    Valeu, Kika!

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  3. Lindo retrato da dualidade humana...

    Mais uma vez,bela escolha,meu amado!

    Beijos da mulher que te ama.

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  4. Como disse o Baleiro na útilma sexta-feira: "São seus ouvidos, querida"(hahahah)
    bjs gripados para você, meu amor!

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