sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sozinho Contra Todos - 1998


Existir é isso, beber-se a si próprio sem sede.
(J.P.Sartre)
No seu longa-metragem de estreia, "Sozinho Contra Todos” (Seul contre tous) 1998, o realizador franco-argentino Gaspar Noé nos convida a visitar dois infernos: um externo, que é a vida do Açougueiro (Philippe Nahon, excelente), um homem que perdeu tudo materialmente: foi preso, afastado de sua filha e perdeu suas posses; e o interno desse mesmo homem: a falta de esperança, o vazio, a culpa por sua ambiguidade moral que culminam em uma caminhada para perder a sanidade e a humanidade que lhe resta.

Depois de uma temporada na prisão por ter agredido um homem por suspeitar que esse houvesse abusado sexualmente de sua filha, uma garota emocionalmente instável, o Açougueiro tenta se re-erguer, deixa a filha em uma instituição mental do governo e arruma um emprego em um café.

Nesse serviço, ele se relaciona com a dona do local. Engravida-a e vão morar juntos. Porém, o tédio existencial do açougueiro junto ao seu comportamento violento logo o faz entrar em choque com a nova companheira. Ele a agride ferozmente, rouba-lhe uma arma e vai para as ruas da cidade.

Nas ruas, a personagem não encontra ajuda de ninguém, só indiferença. Inclusive dos poucos amigos que fez na vida. Ele segue caminhado pelos subúrbios labirínticos de Paris, remoendo seu ódio por tudo e por todos, acompanhado de seu revólver.

Nessas caminhadas, o açougueiro pensa obsessivamente na filha, por quem nutre um ardente e doentio desejo. A personagem é uma bomba relógio prestes a explodir, e a tragédia se pronuncia. Sem dúvidas, um dos filmes mais perturbadores que vi.

Sinto no cinema de Gaspar Noé uma necessidade de chocar o espectador, de passar um naturalismo cru e urgente e fazer a plateia sofrer junto com suas personagens. Percebem-se essas características na escolha dos seus temas, sempre ligados sordidez humana como: a violência, o incesto, a misoginia, o preconceito racial e a vingança. Como na desenvolver estético de seus trabalhos que valoriza a violência explícita (quem já assistiu “Irreversível”, vai lembrar-se do violento estupro e seus mais de 9 minutos de duração, como a cena impactante da briga na boate gay).

Um filme que não é para todos os gostos, é verdade, mas isso não quer dizer que não seja bom.

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