terça-feira, 23 de junho de 2009

O Castelo na Floresta - Norman Mailer


“que permite a sobrevivência dos demônios é que eles são suficientemente sábios para compreender que não há respostas, apenas perguntas”.O demônio narrador em o castelo da na floresta."

As Feridas infligidas ao consciente coletivo pelo advento do holocausto nazista continuam abertas (se é que um dia serão fechadas). Basta ver a quantidade de filmes e livros sobre esse período negro da humanidade que são lançados anualmente.

Filmes como o Leitor (2008), Um Bom homem (2008) e a Queda (2004); e o livro As benevolentes (2007) de Jonathan Littell tentam romper a dicotomia maniqueísta sobre o aspecto maléfico e tentam dar uma áurea mais humana a quem concebeu e promoveu aquele espetáculo deplorável. Entretanto, tratando-se disso, do assassinato covarde de milhões de pessoas, é possível consideráramos esse evento um ato demasiadamente humano? Dá para ser imparcial e não ver a pura face do mal nesses acontecimentos que vitimou mais 15 milhões de pessoas?

Para o lendário escritor norte-americano Norman Mailer não dá. Em seu derradeiro romance- Mailer morreu no final de 2007- O Castelo na Floresta, faz um estudo sobre a maldade da figura central desse acontecimento, o Austríaco Adolf Hitler, e lhe confere uma qualidade maléfica de origem metafísica.

No livro, os fatos são narrados por um demônio de escalão intermediário, uma espécie de executivo menor de uma corporação ou um oficial militar de patente baixa (no romance, tanto o inferno quanto o céu são retratados como instituições burocráticas ), que se dedica a recrutar "clientes" para o seu lado na guerra final. Ele é convocado pessoalmente pelo maligno para acompanhar e incitar um jovem cobiçado pelas hostes do mal que nasceria em 20 de Abril de 1889 no pequeno município de Braunau, no norte da Áustria.

A Trama se inicia antes do nascimento de Hitler e cobre até o período inicial de sua adolescência e tem como personagem principal e Alois, pai de Adolf.
Historicamente, a ascendência do pai de Hitler é um grande mistério. Sua mãe, Maria Anna Schicklgruber, casou-se grávida com um primo de primeiro grau chamado Johann Georg Hiedler, que nunca assumiu a paternidade de Alois, mesmo sem ter motivos para não fazê-lo. Outra opção seria Leopold Frankenberger um rico judeu que teria sido patrão da mãe de Alois (dai a suposta ascendência Judaica atribuída a Hitler). E uma terceira, que no livro é a correta, seu pai era Johann Nepomuk Hiedler, irmão de Johan Georg e consequentemente primo de Maria Anna e com quem Alois vai morar.

Morando com seu verdadeiro pai, que era casado e tinha três filhas, Alois tem diversas relações incestuosas com suas irmãs, logicamente manipuladas pelas mãos do Maligno. Com uma delas teve um filha, que seria sua terceira esposa e mãe de Adolf, Klara Pölzl. Dessas relações indecentes e profanas nasceria o futuro ditador.

O narrador sarcástico e cínico segue contado à vida de Alois, que por um lado era homem rude, egocêntrico, ausente, dominador, beberrão e mulherengo, e por outro lado possuia intelecto e opiniões fortes. Alois apesar de possuir poucos estudos, foi bem sucedido e teve uma carreira respeitosa de funcionário da alfândega. É mostrada também sua indiferença e a sua violência a Adolf e como isso influenciou e moldurou o caráter do seu filho.

Quando jovem Hitler, chamado carinhosamente de Adi pelos seus parentes, é incluído na história, começamos a observar a sua formação e como o demônio-narrador alimenta seus sonhos de grandeza, sua apatia, seus medos e sobretudo, seu ódio . O jovem mostra desde cedo uma crueldade assustadora, como por exemplo, a ocasião em que acometido de sarampo, abraçava e beijava seu irmão menor para contagiá-lo.

As qualidades de Mailer como escritor são gritantes. O livro é assustadoramente bem escrito. Cada frase e cada ideia parecem fazer parte de uma engrenagem perfeita, não fica sobrando nada. Até mesmo nas passagens em que a o narrador desvia da trama, em que ele tem que usar seus "poderes" em outros acontecimentos históricos como a coroação de Nicolau II na Rússia e no julgamento de Oscar Wilde na Inglaterra a narração perde a fluidez.

Mailer fez uma pesquisa de dois anos e aproveitou de falhas biográficas de Hitler e de sua família para compor a história. Se mais de uma década antes havia entrado no mito de Cristo e contado sua história em "O Evangelho Segundo o Filho", desta vez contou o que considerava, em suas próprias palavras" uma resposta do mal a Jesus Cristo".
O melhor livro que li esse ano! pelo menos até agora.

Mailer em 2007

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