terça-feira, 19 de maio de 2009

Stéphanne Mallarmé - o homem que inventou a modernidade

Nota do Pessoal: Esse texto foi influenciado e provocado(no melhor sentido da palavra) pelos posts:Ensaio sobre o pensamento ocidental(e o que a poesia tem a ver com isso partes 1 e dois ) publicado no Barulho Ácido dias 10 e 11 de maio 2009, que você pode ler aqui a pirmeira parte e aqui a segunda.


Aristóteles no Louvre


Aristóteles, a quem Dante chamou de "pai dos que sabem" em a Divina Comédia, criou sistemas de pensamentos que até hoje, 2.300 anos depois de sua morte continuam influentes e de suma importância para o pensamento ocidental. O filósofo escreveu sobre os mais variados assuntos: política, ética, ciências naturais, lógica, história e artes, para esse texto, porém, o último item é o que nos interessa.

A respeito da arte, Aristóteles formulou a divisão dos gêneros artísticos: o épico, o dramático e o lírico, que ainda hoje são utilizados para os estudos sobre arte. É claro que alguns gêneros sofreram algumas mudanças, o gênero épico, por exemplo, não é mais confeccionado em versos como em A ilíada e A Eneida, mas o vemos nos romances de aventura e nos filmes de ação, por exemplo, são seus descendentes diretos.

À poesia, o filósofo grego, racionalizou sobre a sua função, bem como o que seria o belo e o esteticamente agradável em sua composição. Para Aristóteles o fazer poético era antes de qualquer coisa uma imitação da vida e da realidade, uma criação humana que obedeça a um determinado sentido estético e simétrico de elaboração como ritmo, harmonia, rima e versificação. E foi assim por quase 2000 anos.

Tais paradigmas só começaram a ser superados no advento literário dionisíaco do romantismo no final do Século XVII. Formalmente, os poetas começaram a experimentar versos mais livres das amarras simétricas, rímicas ou métricas. Tematicamente a realidade já não era tão importante, agora o que contava mais era o subjetivismo, o idealismo. O conceito estético do belo agora dividia com o grotesco os assuntos abordados e o racional abria espaço para o sentimental.


O simbolismo (outra escola literária celebrava o espírito dionisíaco), apesar de sofrer certa influência estética dos parnasianos, levou às últimas consequências a necessidade do fim da linguagem descritiva poética, com suas construções sinestésicas e abusando de figuras de linguagem por aproximação, deram sequência à revolução e a evolução da poesia começada pelos românticos e que chegaria ao ápice na arte-moderna.

A desconstrução da linguagem para a literatura não veio sozinha, vemos nas artes plásticas a necessidade de renovação que foi a exploração da arte não-figurativa e não imitativa como um Picasso, por exemplo, e na musica com o fim do tonalismo e as evoluções propostas por Schönberg.


Eu procuro o poema como um mistério em que o leitor deve procurar a chave"
(Mallarmé)


É impossível falar de evolução da poesia sem falar de Stéphane Mallarmé (1842/1898) o Francês é o poeta dos poetas, aquele que mais influenciou e despertou admiração entre seus pares pelas suas explorações da multiplicidade da linguagem e pela fragmentação que impôs a ela, moldando-a e lapidando-a sempre buscando novas formas criou uma obra pela destruição e não pela contribuição.

Podemos ver toda essa grandiosidade no seu poema-equação "Um lance de dados, jamais abolirá o acaso" cujos versos estão espalhados por 21 páginas em letras de tamanhos diferentes em posições disformes que o leitor pode ler em diferentes sequências. Versos aleatórios, com um forte apelo visual e apresenta uma ideia circular.

Segundo Octávio Paz "este poema que nega a possibilidade de dizer algo absoluto é a consagração da impotência da palavra e afirmação plena da soberania da palavra. Não diz nada e é a linguagem em sua totalidade", ou seja, o poema é luta angustiante poeta pela palavra inédita ou pelo sentido novo para a palavra.

Não só pelas formas o poema e ousado, o seu sentido caótico e desordenado possibilita várias leituras profundas. O próprio nome que o poema já é retórico e filosófico o suficiente para milhares de indagações e reflexões. O poema é uma busca circular pelo acaso, pelas dúvidas e pelo inesperado. Nele, correm aleatoriamente palavras que celebram a incerteza, o sentido (ou sua falta ) nas possibilidades de desdobramentos infinitos.

Um lance de dados é o poema como o qual Mallarmé inventou a modernidade. Desde a prosa poética de James Joyce em finnegans wake, passado pelo cubo-futurismo de Maiakovski e os ideogramas de Pound até chegar ao concretismo dos irmãos Campos e companhia, todos beberam dessa água.




Mallarmé por Èdouard Manet 1876



Abaixo, o começo uma parte do meio e o final do poema. Juro que tentei postar ele inteiro, mas não tive capacidade de arranjar ele de forma a não perder suas genialidade.


UM LANCE DE DADOS


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JAMAIS





.......MESMO QUANDO LANÇADO EM CIRCUNSTÂNCIAS



ETERNAS

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DO FUNDO DE UM NAUFRÁGIO (...)

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JAMAIS ABOLIRÁ(...)

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O ACASO (...)

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vigiando

...............duvidando

..................................rolando

..................................................brilhando e meditando

.....................................................

.............................................
antes de se deter

...................................em algum ponto último que o sagre

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.......................Todo Pensamento emite um Lance de Dados

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"Tridução": Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos
Fonte de pesquisa: Mallarmé - CAMPOS, Haroldo e Augusto ; PIGNATARI, Décio - ED prespectiva, 3 edição 2006

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