quinta-feira, 7 de maio de 2009

Camus - O Mito de Sísifo


"Camus dizia que o único verdadeiro papel do homem, nascido em um mundo absurdo, era viver, ter consciência de sua vida, de sua revolta, de sua liberdade." Willian Falkner sobre Camus

O Mito de Sísifo( Ensaio sobre o Absurdo)

O Sísifo mitológico foi uma personagem ardilosa que enganou os deuses gregos (inclusive o todo poderoso Zeus) inúmeras vezes das mais variadas formas. Enganou a morte por três vezes e quando finalmente veio a morrer de velhice, foi condenado a empurrar um pedra para cima de uma montanha e ao chegar lá, a pedra, por seu formato, volta rolando para baixo. Um trabalho eterno e inútil. Deste mito mundial, o escritor Albert Camus tirou a o substrato para compor seu ensaio " O mito De Sísifo. publicado em 1942.

No Ensaio, Camus tece a problemática de seu projeto filosófico e reflete sobre ele. A questão sobre o absurdo, que é o conceito fundamental do seu pensamento como entendimento para a compreensão da vida e de seu sentido para o homem. A obra é dividida em quatro capítulos e um apêndice: Um Raciocínio Absurdo, o Homem Absurdo, a Criação Absurda, o Mito de Sísifo e a Esperança e o Absurdo na Obra de Franz Kafka no anexo.

Um Raciocínio Absurdo

O livro começa levantando uma única questão e a coloca como fundamental, essencial e mais importante: Vale a pena viver a vida frente a sua completa falta de sentido, ou o suicido é uma opção? Viver ou morrer, essa é introdução ao seu pensamento. Diante deste pensamento angustiante e absurdo, mas não menos um e outro do que a própria vida, Camus olha a obra de outros pensadores que enveredaram pelo tortuno caminho do pensamento absurdo: Nietzsche, Jaspers, Heidegger, Husserl e Kierkegaard, discute sua conclusões, confrontá-las,( principalmente a fenomenologia do penúltimo e a metafísica do último) e apresenta as suas.

Camus responde a sua questão primordial e descarta o suicídio e aponta o absurdo como o caminho a ser trilhado, não em sua terna aceitação, mas em eterno estado de confrontação(revolta). Abraçar o absurdo significa reconhecer a oposição entre a razão humana e a insensatez do mundo. Para chegar a esse estado de sensibilidade e consciência absurda é preciso negar a esperança, seja ela espiritual como sugeriu Kierkgaard ou de qualquer outra forma(liberdade). Viver o absurdo é recusar qualquer tipo de fuga e aceitar lucidamente os paradoxos que a vida oferece da melhor e da máxima maneira possível, o amor fati, no sentido nietzschiano (paixão).

"A dois homens que vivem o mesmo número de anos o mundo fornece sempre a mesma soma de experiências. Cabe a nós estarmos conscientes delas. Sentir sua vida, sua revolta, sua liberdade; e o máximo possível, é viver, e o máximo"(Camus)

O Homem Absurdo

"Meu campo" diz Goethe "é o tempo". Eis aí claramente a palavra absurda. O que é, realmente, o homem absurdo? Aquele que, sem o negar, não faz nada para o eterno. Não que a nostalgia lhe seja estranha. Mas ele prefere sua coragem e seu raciocínio"(Camus )

No segundo capítulo Camus segue um caminho mais poético e abstrato para ilustrar o homem absurdo e como esse deve se portar. O escritor, para descrever esse comportamento, utiliza de arquétipos como o de Don Juan: que vive com paixão e intensidade; o Comediante: que vive brevemente e efemeramente; e o Conquistador: aquele que sabe que nada é eterno e age. aquele que escolhe a ação à contemplação.

Corajoso, racional e honesto, esse é o homem absurdo que não se preocupa com o que vai acontecer depois de sua morte, pois não acredita no eterno.
A coragem e o raciocino o ensinam a se satisfazer com aquilo que lhe é destinado e a perceber seus limites, e a honestidade por respeitar suas regras, não as convencionais.

"Sim, o homem é seu próprio fim. E é seu único fim. Se quiser ser alguma coisa, é nesta vida." (Camus)

A Criação Absurda

"Para o homem absurdo, já não se trata de explicar e resolver, mas de experimentar e descrever." (Camus)

A frase acima está no terceiro capítulo do livro e se você gosta de expressões artísticas absurdas como por exemplo um filme do David Lynch ou um quadro de Munch, ela poderá lhe servir de mote e de substrato para debater com alguém que tem opinão diferente.

Nessa terceiro capítulo, Camus a principio caracteriza o absurdo em termos de criação literária e o esquematiza. Aponta algumas tentações que podem fracassar a criação absurda. Analisa e desnuda alguns obras de Dostoievski, entre elas O Idiota, O Diário de um Escritor e Os Irmãos Karamazov, mas não as olha e critica seus dotes literários e sim o abandono dos pressupostos filosóficos absurdistas, apesar de ver muitas situações o apelo ao Absurdo.

O Mito de Sísifo

"Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador inútil dos infernos” ( Camus - O Mito de Sísifo ).
No último capítulo, Camus dá rosto ao Homem Absurdo. Ele é o Sísifo, que desafia aos Deuses,engana e odeia a morte, tem um trabalho inútil e detestável e desiste de entender sua vida, mas não a nega. Mergulha nela como se o amanhã(esperança) não existisse e tem a exata consciência de sua condição.
Apêndice – A esperança e o Absurdo na Obra de Franz Kafka

O anexo é um breve, porém, delicioso estudo sobre o viés absurdo presente na obra de Kafka.
Esse apêndice segue o modelo já explorado no terceiro capitulo sobre a obra de Dostoievski, agora aqui é Analisado os romances: O Processo e O Castelo, e a Novela: A Metamorfose e suas personagens e passagens,Camus identifica a sensibilidade absurda presente na obra do checo, mas como na analise passada, também identifica os possíveis desvios do pensamento absurdista.

Se concordarmos com Sartre que descreveu o romance O Estrangeiro como: "uma prosa cheia de silêncio”, concluiremos, então que certamente esse ensaio e cheio de sons angustiantes e gritos de revolta por tudo que aleija e entorpece a percepção do absurdo e pela falta de sentido na vida. E o que esse absurdo? talves o melhor conceito sejam exemplos: a torturante rotina do dia-dia, saber que um dia sua vida ira terminar, a violencia diária nas ruas, a briga do ser humano em acumular riqueza, o homem que mata aquilo que ama, a concentração de renda frente a miséria absoluta, a destruição do planeta por ganância, etc e etc...resumindo: a tão mencionada condição humana.

O ensaio, apesar da dificil tarefa de domar o absurdo, é de uma clareza e uma concisão que impressionam. (para mim, a melhor qualidade estilística de Camus com escritor é essa) sem lançar mão de jargão ou de devaneios linguistiico ou filosófico passa sua mensagem e mesmo que você não concorde com seus pontos, é possivel retirar muito material para reflexão.
O ensaio conclama no seu final que “ é preciso imaginar Sísifo feliz” que assim seja então... que todos nós, sísifos, sejamos felizes.

"Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz." (Camus)


Para conhecer mais:
http://filosofocamus.sites.uol.com.br/ - site com material de e sobre Camus.
http://barulhoacido.blogspot.com/2008/01/reflexo-sobre-o-suicdio-o-homem-cansado.html - excelente texto postado no blog barulho ácido que faz um paralelo entre a obra de Camus e o cult road-movie "vanishing point".

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