quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Aparição - Vergílio Ferreira

Existencialismo à portuguesa.

"A minha presença de mim a mim próprio e a tudo que me cerca e dentro de mim que não sei - não do olhar dos outros- os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim, que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo"

Publicado em 1959, o romance "A Aparição", Obra-prima de Virgílio Ferreira, descende direto de uma linhagem literária existencialista que vai de Albert Camus, André Malraux, Lúcio Cardoso até Sartre, que através de seus escritos literários: romances, peças, novelas e contos; relataram o espanto de existir e viver, o absurdo da condição humana diante da vida e principalmente da morte e a falta de sentido na existência.

O romance é narrado pela personagem principal, Alberto Soares, em um primeira linha narrativa temporal, encontra-se velho em um antigo casarão e revive suas memórias. Nessas lembranças, acompanhamos uma outra linha temporal em que a personagem, agora mais jovem, recem-chegado a cidade de Évora, na qualidade de professor, para dar aulas no Liceu da cidade.

Em Évora, estabelece amizade com Dr. Moura, antigo conhecido de seu pai, e com as filhas do médico: Ana (casada com um Homem rude e distante chamado Alfredo), Sofia (uma mulher problemática com que Alberto terá um relacionamento conturbado) e a doce e angelical Cristina. Através de Moura ainda conhecerá outros moradores da cidade, como o o engenheiro Chico, (com quem travará alguns embates de ordem politicas e filosóficas) e Carolino, o bexiguinha(jovem aluno de Alberto em que num primeiro momento vê como um discípulo.

Em uma terceira linha temporal vemos Alberto ainda garoto e um evento que marcará a visão do jovem para sempre, a morte de seu cão Mondego. Essa proximidade da morte, instigará o Alberto a questionar o sentido da vida angustiantemente a todo momento. A Morte tem um papel importante no desenvolver da obra, e vai pontuando a narrativa, as dos pais da personagens quanto as mortes das tragédias que se abateram em Évora.

De volta à segunda linha temporal passada em Évora, a vida vai passando. Alberto além das aulas no Liceu, dá aulas particulares de Latim para Sofia, e acaba tendo com ela um relacionamento secreto. No colégio, da aula para Carolino que se mostra o mais participativo e influenciado pela retórica de Alberto.

Com o fim do ano, a cidade que tão bem acolheu Alberto começa a lhe ficar hostil. O reitor do Liceu o repreende pelo teor filosófico pouco apropriado de suas aulas, Chico, que a princípio lhe era amigo, passa a duro opositor de suas ideias existenciais e Sofia passar a namorar Carolino, mas continua visitando o professor.

Em um trágico acidente de carro dirigido por Alberto, Cristina morre deixando ainda mais conturbado o ambiente. Carolino começa a demonstrar um comportamento psicótico e violento, com ciúmes de Alberto e Sofia, tenta matar o primeiro mas é subjugado pelo professor, humilhado, se vinga no vértice mais fraco do triângulo amoroso, mata Sofia.

Viver em Évora torna-se impossível para Alberto, Ele se muda para Faro, cidade ao sul de Portugal, lá se casa, tem filhos e envelhece. Com a morte da mãe, vai visitar o casarão de sua família, e inicia a narração do começo da história.

Do ponto de vista estilístico, A Aparição arranca suspiros. Com suas analepses bem amarradas, com sua prosa quase lírica, rica em símbolos e em emoções e com suas descrições fotográficas perfeitas das situações e personagens. Cada reflexão que a personagem de Alberto Soares faz além de um convite a indagar sobre a falta de sentido da vida, e a falta de razão da morte de maneira poética.

Do ponto de vista temático, o romance mergulha no existencialismo, não por modismos ou apenas por estilos. Não é baseado em crenças e sistemas alheios, mas em uma visão pessoal. A Personagem principal procurava por uma revelação, uma "aparição" e a procura no único lugar que pode encontrar, dentro de si mesmo.

A Aparição não é um livro de respostas. Sim um de perguntas. É livro que dificilmente vai passar sem deixar sua marca em quem ler. Decerto depois de ler, alguns incômodos lhe acertem, mas, talvez ai você comece a fazer sua procura ou encontre seus objetivos. Grande Livro!

Trecho:

"...., porque a chuva tem para mim o abalo da revelação e abre como auréola o halo da memória ao que nela aconteceu. Subtilmente, aliás, é à vibração inefável das horas da natureza que eu posso reconhecer melhor o que me vivi no passado. Um sol matinal, a opressão das sestas do Verão, o silêncio lunar, os ventos áridos de Março, os ocos nevoeiros, as massas pluviosas, os frios cristalizados são o acorde longínquo da música que me povoa, tecem a harmonia vaga de tudo o que fiz e pensei. A minha vida assinala-se em breves pontos de referência. Mas esses pontos, como os de uma constelação, abrem-se ao que os ressoa como música das esferas, vêm de longe até mim não no que os concretiza mas na névoa que os esbate como um murmúrio de nada. O passado não existe. Assim me acontece às vezes que toda a minha vida de outrora se me revela ilegível : o que a forma são factos, sentimentos que se analisem ou reconheçam, mas os ecos alarmantes de um labirinto onde a chuva, o sol ou o vento repercutem e quase criam uma estranha vibração. São vozes que me chamam dos quatro cantos do espaço e eu não ouço senão quando a aura das horas mas lembra. Daí que me acusem às vezes de. Ainda um dia hei de falar desse equívoco da. Porque não há retórica apenas na inflação da garganta. Há-a do empolamento como do esquematismo; do calor como da frigidez; do sentir como do pensar; da emoção como da inteligência. Se Hugo é retórico, é-o também Mallarmé; Lívio como Tácito, Sá-carneiro como Pessoa, Camilo como Eça,Régio como Torga. A pode não separar um autor de si próprio : separa-os a nós dele, quando não o aceitamos. A própria vida será retórica para aquele que está morto... Hei de falar disto aos meus alunos. Conheço uma certa emoção das horas, sei da aparição dos instantes-limite, das vozes submersas, e gostava de falar aos outros essa notícia. Há uma vida atrás da vida, uma irrealidade presente à realidade, mundo das formas de névoa, mundo incoercível e fugidio, mundo da surpresa e do aviso. Assim o próprio presente pode ter a voz do passado, vibrar como ele à obscuridade de nós. A minha retórica vem do desejo de prender o que me foge, de contar aos outros o que ainda não tem nome e onde as palavras se dissipam como a névoa do que narram."

4 comentários:

  1. Você ainda vai me dar um curso de literatura. É melhor ir se preparando.

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  2. Seu post está maravilhoso, mas acho que houve um equívoco, não é Alberto que está dirigindo o carro quando ocorre o acidente que acabalevando Cristina a morte e sim Alfredo (marido de Ana). Tanto que Alberto está com Sofia e sua mãe dentro do carro antes do acidente e acaba levando Ana, sua Mãe e Cristina ferida para ser socorrida.

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  3. Na minha pesquisa sobre Vergílio Ferreira, encontrei este canto poético que é o seu blogue e de que gostei.
    No entanto e perdoe a ousadia, a citação inicial do post não está totalmente correcta. Na primeira linha, a seguir a "cerca" deve ser: "é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros. Os astros, ..." (Bertrand Editora, 23ª edição, 1995)
    Mas fico contente que este autor da "sagrada beira" tenha leitores e admiradores nesse belo país do lado de lá do Atlântico.
    Também gostei já agora de ver as traduções do manuel a. domingos (outro beirão) de Bukowsky.
    Abraço.

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  4. Obrigada pela reflexão.. me ajudou muito. Claudia (estudante de Letras)

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