quarta-feira, 6 de maio de 2009

Albert Camus - O Estrangeiro


A Epopeia do homem absurdo

Se 1905 ficou conhecido como o ” ano do milagre de Einstein”,por sua contribuição para o mundo da ciência pela publicação das teorias sobre relatividade especial, o movimento Browniano e o efeito foto-elétrico, 1942 o mundo das letras também teve o seu ano mirabilis. Nesse ano, o argelino Albert Camus publicou seu romance “ O estrangeiro” e o ensaio filosófico “O Mito de Sísifo”, inserindo-se, com todo reconhecimento e merecimento, definitivamente no mundo literário e filosófico.

O Romance absurdo

“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: "Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos." Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”.

O estrangeiro narra a historia de Mersault, jovem homem apático indiferente e entediado, que nem mesmo o amor de uma companheira de serviço ou nem mesmo a noticia da morte de sua mãe o fazem tremer. Ele assiste toda sua vida ir passando de maneira fria e distante refletindo toda a sua solidão psicológica e espiritual.

A narrativa se inicia com o anuncio da morte de sua mãe, Mersault toma todas as medidas cabíveis, entretanto não demonstra afeto ou qualquer sentimento e esse fato além de apontar a aparente misantropia da personagem, vai ter uma uma importância no desenvolver da historia e como apoio para o fundo filosófico do romance.

No decorre da primeira parte da história, nos é mostrada Marie Cardona, companheira de serviço com quem Mersault tem um envolvimento físico, porém incapaz de romper as barreiras sentimentais que a personagem principal se impõe. Também conhecemos Raymond Sintès,vizinho e amigo de Mersault, um cafetão.

Depois de ajudar Sintès a se livrar de uma amante, uma moça árabe, Mersault junto de Raymond, envolvem-se em uma briga com o irmão da moça. O amigo da personagem sai com um ferimento de faca, Mersault tomado por uma fúria e afetado pelo forte sol, pega uma arma, volta ao local da briga, uma praia, e desfere dois tiros no rapaz árabe. Depois se aproxima e dá mais quatro tiros no seu adversário.

A segunda parte do romance se passa no período em que Mersault aguarda o julgamento, preso, vê o absurdo da sua situação e de sua vida. Sem poder contar com sua liberdade, a personagem passa a refletir sobre os acontecimentos e suas atitudes e descobre os benefícios das lembranças, Nesse momento, o romance toma comum a todo o ser humano. Quem de nós nunca passou a sentir falta das coisas só quando as perderá?

O absurdo se manifesta e mostra seu aspecto institucional, mostrando que além de fazer parte do intimo humano, no coletivo ele também existe. No julgamento, as atenções se concertam no fato de Mersault não ter chorado ou demostrado emoção no enterro de sua mãe, deixando o ato violento em segundo plano.

O romance todo esta empregando do projeto filosófico de Camus, aliás, com todos seus textos (exceção talvez às “Nupicias”), sejam romances, ensaios, contos ou nas suas peças. Cada situação, evento e ou diálogo são um convite ao filosofar e a reflexão. Com uma prosa enxuta e direta, sem afetação, oportunismo ou modismos. Camus no convida a seu mundo, ensolarado, sem sentido, absurdo, entretanto, um mundo a ser vivido e descobrido.

Um Grande livro!

"Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à tenra indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era". Monólogo de Mersault no fim do livro.

A seguir: O Mito de Sísifo...

5 comentários:

  1. O romance é, em muitos aspectos, semelhante ao "A Náusea", primeiro livro do Sartre (acho que é de 1923). Os dois conceitos, a náusea do Sartre e o absurdo de Camus, são similares. É engraçado ver, também, que Sartre primeiro romantiza o problema e depois filosofa sobre ele ("O Ser e o Nada" é posterior ao "A Náusea"); assim fez Camus. Primeiro, o romance, depois, o "Mito de Sísifo".

    E, pra terminar: quem poderia ter morte mais absurda que Camus?

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  2. Realmente, o conceito do absurdo de Camus é similar a náusea de Sartre, como vejo semelhança também com a angustia de Heidegger e o desespero de Kierkgaard.

    É claro que cada um deles desenvolve e resolve de forma distinta, por exemplo: para Kierkegaard o fim do desespero era concepção religiosa, para Sartre o fim da Náusea era liberdade e responsabilidade(ambas no sentido sartriano), em Heidegger é a própria investigação da angustia e da culpa.

    Sinceramente não vejo uma diferença efetiva entre essas soluções para o despertar para a sensibilidade absurda de Camus.

    Tudo isso me leva a questionar a contante recusa de Camus ao rótulo de existencialista e a distinção que ele faz do seu pensamento ao desses filósofos acima citados.

    Obrigado pelos valorosos comentários.

    Abraço,

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  3. Mesmo porque Camus não delineia uma saída para o absurdo. Veja que ele abre "Mito de Sísifo" com uma afirmação poderosa: a de que a vida é o único problema filosófico a ser investigado. E, no entanto, se ao final do livro ele afirma que a vida vale a pena ser vivida, ainda assim ele deixa claro que só vale a pena quando o homem compreende o absurdo - mas o absurdo ainda está lá, como se fosse algo irremovível da existência. É algo com o que teremos de viver, não é possível ultrapassá-lo.

    Camus também é fortemente influenciado por Heidegger e Kierkegaard, além do pai de todos eles - Hegel.

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  4. Um livro fantástico.
    Nas minhas predileções em Camus (que é de longe meu filósofo predileto)está em segundo lugar perdendo apenas para Núpcias, o Verão (embora, para vcs o livro não tenha questões filosóficas profundas, eu diria que é o livro inicial do pensamento Camusiano)

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  5. Si, fosse algo seria o nada,

    O "Núpcias" é um livro belíssimo de fato.

    Eu sei que é convenção apontar essa obra como a "menos" filosófica de Camus, o que eu não concordo, ou indicar que nesse livro o pensamento de revolta e a questão do absurdo ainda não se manifestaram, o que, pelo menos para mim, faz todo o sentido.

    É verdade que no livro vemos temas recorrentes ao universo camuniano,como a abordagem ao sentimento de "vazio", mas "Núpcias" é um livro que celebra a aceitação à vida e não a revolta para com ela.

    Obrigado por participar dos comentários.

    Abs,

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