sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Trilogia Das Cores - Krzysztof Kieślowski


O Ballet do Acaso


Orientado por dois eventos históricos e políticos de suma importância para o mundo: o aniversário de 200 anos da Revolução Francesa e a Unificação da Europa, o cineasta polonês Krzysztof Kieślowski criou uma das mais belas obras da história do cinema, sua Trilogia das Cores(Trois Couleurs).

Cada um dos filmes tem como nome de uma das cores da bandeira francesa, e é acompanhado de seus ideais: azul a liberdade, branco a igualdade e vermelho a fraternidade, e como cada um desses conceitos refletem na hoje em dia na nossa sociedade, algo semelhante que o diretor já havia feito alguns anos antes com sua série decálogo, a qual fazia uma leitura atual e o que representava os dez mandamentos bíblicos para o mundo moderno.


O primeiro filme, A Liberdade é Azul(Bleu)1993, conta a história de Julie Vignon(Juliet Binoche em atuação memorável) uma modelo que em um acidente de carro perde a filha e o marido, um famoso compositor responsável pelo "Concerto da Unificação da Europa. Depois de uma tentativa frustrada de suicídio, Julie resolve vender sua casa e todos seus bens, queimar as fotos e se libertar da dor e de tudo que a lembre de sua antiga vida, começa um relacionamento com o colaborador de seu marido(Benoit Régent) , mas novas descobertas a fazem reabrir suas feridas, e de novo em contato com a dor, percebe que a liberdade não é o esquecimento e sim a vida.

Além da já destacada interpretação de Juliet Binoche, o filme possui uma fotografia belíssima de Slawomir Idriak em tons azulados, um roteiro delicado escrito por Kieślowski, Krzistof Presnier(habitual colaborador e co-autor dos outros filmes da trilogia) e do cineasta Agniezska Holland e uma trilha sonora excepcional de Zbigniew Presnier(autor das trilhas dos outros filmes da trilogia), uma das melhores da história do cinema

A Liberdade é Azul ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor filme e melhor fotografia, tendo ainda Juliette Binoche como melhor atriz. Binoche também ganhou o César que também foi concedido ao filme nas categorias melhor montagem e melhor som. Para fechar, três indicações ao Globo de Ouro: Melhor filme estrangeiro, melhor música e melhor atriz.


A Igualdade é Branca(Blanc)1993 é um drama cínico e com leves tons cômicos que conta a história de Karol Karol(Zbigniew Zamachowski) um cabeleleiro polonês que vive em Paris com sua esposa Dominique(Julie Delpy) que o surpreende pedindo o divórcio, o humilhando e tirando todos seus bens. Karol ainda passa por maus momentos e resolve voltar para Varsóvia, onde consegue juntar uma pequena fortuna e planeja uma inusitada vingança para sua ex esposa, a quem ainda é apaixonado.

O filme através de seu humor-negro, seu clima melancólico e enredo perturbado nos remete a sentimentos humanos e sensíveis destaque para cena final, que é enigmática e poética.

A Igualdade é Branca deu o Urso de Prata em Berlim para Kieślowski como melhor diretor.


Com um início capaz de fazer um cinéfilo se contorcer na cadeira de prazer - uma câmera segue uma ligação telefônica, desde o aparelho em que se origina, passando pelos fios e cabos até bater no sinal ocupado do outro lado no aparelho destinatário - assim começa "A Fraternidade é Vermelha"(Rouge)1994, a Obra-Prima de Kieślowski.

Nele, conhecemos Valentine(Irene Jacob, lindíssima) uma modelo e estudante universitária, uma pessoa boa, honesta e compreensiva que ao atropelar uma cadela, tem sua vida cruzada a da personagem de Jean-Louis Trintignant, o dono do animal. O juiz(personagem de Tritgnant) é um magistrado aposentado amargurado, solitário e desleal, o oposto da personagem de Jacob.

Valentine, depois do acidente, leva a cadela à casa do juiz, pois seu endereço está na coleira do animal, chegando lá descobre que o magistrado espiona a vida de seus vizinhos através de um aparto eletrônico. Perplexa com a atitude do juiz, a modelo fica a princípio revoltada, mas entende que ele precisa de apoio e apesar de todas as diferenças, desenvolve uma amizade comovente e fraterna com o magistrado.

Há também um aspecto misterioso e metafísico no filme. Auguste (Jean-Pierre Lorit), um estudante de Direito que se preparar para fazer um concurso de juiz, vive uma trama paralela a de Valentine e embora não se conheçam, vivem cruzando um o caminho do outro. Mais curioso ainda é que a vida de Auguste parece reviver, a história pessoal do juiz com se aquele fosse um alter-ego desse. A personagem do juiz que não possui nome parece ser um metáfora de Deus, onisciente(através das escutas telefônicas sabe de todos os fatos) Clarividente(parece saber que a viagem de barco no final do filme vai ser determinante para a história) além de ser um juiz e julgar os erros da humanidade.

A fotografia do filme segue o modelo de "a Liberdade é Azul. Piotr Sobocinski, o fotógrafo, dá ênfase ao brilho da Irene Jacob em tons vermelhos que realçam a beleza da atriz. A trilha sonora é sublime e o roteiro perfeito. A Fraternidade é Vermelha ganhou Cannes como melhor filme, o César por melhor trilha sonora e foi indicado ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e ao Oscar como melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

Rouge é um filme mágico e apaixonante, tem um forte viés filosófico apesar da simplicidade da narrativa. O final do filme e fenomenal e amarra o destino das personagens dos três filmes, como se a vida fosse uma dança, um Ballet do acaso. Cinema com "C" maiúsculo!

5 comentários:

  1. Oi cara!!! Tudo bem?

    Eu sou o Lucas q comentou no seu post sobre "Queime Depois de Ler"...

    Então, eu gostei MUUUIIITO do seu post sobre a trilogia das cores do Kieślowski! Já li algumas menções sobre essa tal trilogia em vários blogs, mas nunca me interessei em ir atrás dos filmes... Outro motivo de eu ter deixado esses filmes passarem batidos foi o pouco conhecimento q tenho sobre história do cinema (beeeem menos do q eu queria).

    Fiquei instigado em assistí-los agora.

    Vc tb pretende escrever algo sobre a série Decálogo? (ou pelo menos dos "Não Amarás" e "Não Matarás" dessa série?).

    Fica na paz!! Abraços!!

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  2. Adorei os filmes!Fiquei até com vontade de revê-los...ótimo comentário!Vc é crítico de arte?Seus textos fluem com a maior facilidade...parabéns!
    Será ,igualmente, um prazer ter aqui,um link para minhas ervilhas!
    Até mais!

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  3. Fala Lucas,

    É lógico que me lembro de você.
    Fico Contente que você goste dos posts e das indicações.

    A respeito dos filmes, são muito bons. Altamente recomendáveis
    Principalmente " A Fraternidade é Vermelha".

    Sim, em breve pretendo fazer um post sobre os filmes que você citou e também da "Dupla Vida de Veronique" do Kieslowski que é um baita filme também.

    Abraço,

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  4. Olá Gambs,

    Fico contente que você tenha gostado do texto!

    Não sou crítico, sou só um palpiteiro cara de pau! brincadeirinha...

    Na verdade, eu tive experiência com crítica de cinema no passado, e apesar de trabalhar no mercado financeiro, tenho formação em letras. Cursei uma pós em teoria literária que infelizmente não conclui e em junho começo um mestrado em literatura.

    Sou um verdadeiro apaixonado por arte! Principalmente literatura, cinema e música. E dessa paixão nasceu esse blog. Cujos frutos são as novas amizades que venho fazendo e as velhas que venho restabelecendo.

    Bom, é isso...

    Até mais,

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  5. Hummmm....agora começo a entender!
    De qq modo,parabéns pelos textos!Seu estilo tem uma acidez na medida certa!
    E as novas amizades são muitas vezes,interessantes.

    Bjs

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