domingo, 1 de fevereiro de 2009

Where Is My Mind?



Você não é seu trabalho. Você não é quanto tem no banco. Nem o conteúdo de sua valise. Muitas menos as roupas que veste. Você não é um lindo floco de neve.
(Tyler Durden)

Meu primeiro contato com Chuck Palahniuk foi há 10 anos, na 23º mostra Internacional de Cinema, no extinto Cinearte. Eu e um amigo fomos assistir “O clube da luta” - é do mesmo diretor do Sev7n, deve ser bom - dizia para o meu amigo, sem saber que sairia de lá com as orelhas doendo e com o cérebro em êxtase.

As orelhas não doeram pela altura do som ou pela friagem do ar-condicionado, mas pelo filme ser um verdadeiro tapa na orelha. Algo que te fazia despertar, mas não com um calmo gemido, mas com uma explosão.

O filme é um daqueles que parece abençoado pelos Deuses do cinema e das artes. A combinação dos talentos do diretor David Fincher, que é um cineasta de autos e baixos, mas com mais acertos que erros; do ator Edward Norton, que é um dos melhores atores da sua geração; e do autor, Chuck Palahniuk que um dos melhores romancista da língua inglesa da atualidade, resultaram em um dos melhores filmes da década passada. É cinema com “C” maiúsculo.



Anos mais tarde, li o livro para ver que reação causaria em mim, e foi outro tapa na orelha.
O texto ácido e corrosivo de Chuck Palahniuk funcionou tão bem na escrita quanto na tela.
Seu estilo enxuto e direto parece não poder perder tempo com rodeios, e salta aos nossos olhos e penetra na nossa mente.

Trata-se de uma comédia grotesca que satiriza a vazia e consumista cultura americana, rotulá-la apenas como anticapitalista ou fascista é limitar sua capacidade de penetração.

A personagem narradora é um funcionário de uma agência de seguros, que sofre de uma severa insônia, passa o tempo comprando coisa que não precisa só para manter a sanidade. Em uma viagem de trabalho conhece Durden, e juntos lançam o tal clube da que cresce mais e mais até virar o “Projeto Caos” um grupo para-militar para libertar o homem do capitalismo que o paralisa.

Os conflitos existenciais das personagens e a falsa ideia de posse, onde um consumismo redentor e exagerado pode dar um contentamento passageiro, despencam no vazio que resulta em uma indiferença para com o ser humano e a sociedade.

Palahinuk foi no mínimo o artista que melhor retratou o espírito da sua época .
Uma época egoísta e violenta. Suas personagens reagem com violência contra o sistema que os esqueceu. SE nos período do pós-guerra o mundo poderia ser reconstruído agora era diferente. Não havia esperança para essa geração que cresceu vendo TV e foi criada por mulheres.

“Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida”.

Uma geração que não precisa caçar para se alimentar, tem alimentos em abundância só ir a um mercado e pegar.Não precisa ler um livro para aprender, é só ligar o computador.
Uma geração escrava de uma ideia de ter que ser melhor e mais bonito em tudo senão não será feliz.
Uma geração que vende barato seus sonhos, a troca de esmolas para comprar coisas que não precisam.

Talvez o cinismo seja o adjetivo que melhor resuma o clube da luta. Não somente como o termo é usado hoje em dia, mas como a corrente filosófica grega de 2400 anos atrás criada por Antístenes, que tinha como principal mote "que a felicidade não depende de nada externo à própria pessoa, ou seja, coisas materiais, reconhecimento alheio e mesmo a preocupação com a saúde o sofrimento e a morte, nada disso pode trazer a felicidade. Segundo os Cínicos, é justamente a libertação de todas essas coisas que pode trazer a felicidade que, uma vez obtida, nunca mais poderia ser perdida." trecho gentilmente afanado da wikipédia.

Monologo de Durden, manifesto cínico:

"Você abre a porta e entra
Está dentro do seu coração
Imagine que sua dor é uma bola de neve que vai curar você
Esta é sua vida
É a última gota pra você
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
Que acaba um minuto por vez
Isto não é um seminário
Nem um retiro de fim de semana
De onde você está não pode imaginar como será o fundo
Somente após uma desgraça conseguirá despertar
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser
Nada é estático
Tudo é movimento
E tudo esta desmoronando
Esta é sua vida
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
E ela acaba um minuto por vez
Você não é um ser bonito e admirável
Você é igual à decadência refletida em tudo
Todos fazendo parte da mesma podridão
Somos o único lixo que canta e dança no mundo
Você não é sua conta bancária
Nem as roupas que usa
Você não é o conteúdo de sua carteira
Você não é seu câncer de intestino
Você não é o carro que dirige
Você não é suas malditas calças
Você precisa desistir
Você precisa saber que vai morrer um dia
Antes disso você é um inútil
Será que serei completo?
Será que nunca ficarei contente?
Será que não vou me libertar de suas regras rígidas?
Será que não vou me libertar de sua arte inteligente?
Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?
Digo: você precisa desistir
Digo: evolua mesmo se você desmoronar por dentro
Esta é sua vida
Melhor do isso não pode ficar
Esta é sua vida
e ela acaba um minuto por vez
Você precisa desistir
Estou avisando que terá sua chance”.(Tyler Durden; Clube da Luta)

Tyler foi um anti-herói detestável e necessário de uma época detestável e desnecessária.

Abaixo "Where is my mind?" do Pxies que fecha o filme.

3 comentários:

  1. Tá certo...confesso que desde seu lançamento,tive muito preconceito com relação a esse filme.Precisou de um tempo,para que você me convencesse a dar uma chance a ele,meu amado...
    E não é que tive uma grata surpresa?
    Claro que achei violento demais,que tem sangue demais e tudo mais...rsrs.
    Mas ele se mostrou um retrato bem convincente de uma geração perdida.
    Lembrei-me da canção dos Fab Four:Nowhere Man.
    "He`s a real nowhere man,sitting in his nowhere land,making all his nowhere plans for nobody"
    Gostei.

    Todos os meus beijos para você,meu lindo!

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  2. Sandra Gambs,

    É em momentos como esse que tenho certeza que você é mulher da minha vida. E olha, que esses momentos são uma rotina. Adorei a intertextalização que você fez.

    Quanto a violência do filme, ela é apenas um meio de retratar o niilismo do texto. não a achei gratuita.

    Cem beijos por segundo para você, minha querida!

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  3. Hummm....que delícia!!!

    Beijos em dobro para você,amor meu!

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