segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Simbolismo

Gustav Klimt - O Beijo

O simbolismo foi a escola literária da poesia. É verdade que as telas de Paul Gauguin e o teatro de Ibsen também foram obras muito representativas do período, mas foi na confecção dos versos que esse movimento tomou sua forma definitiva.

O Simbolismo nasceu na França no final do século XIX, e apresentava uma dura ruptura ao movimento anterior, o Realismo, tanto na forma quanto ao conteúdo. A rigorosa poesia parnasiana tão preocupara com a forma e os preceitos clássicos era vista como decadente para os simbolistas tanto quanto o racionalismo, o descritivismo e o coletivismo dos Naturalistas.

Os simbolistas, a exemplo dos românticos, sentiam um profundo mal-estar com a sociedade, com a cultura e com a realidade, de jeito que mergulhavam no irreal, no sonho e no fantástico O desafio para o poeta simbolista era retratar esse universo estranho brincado com os signos, e os significantes e significados das palavras, destruindo a poesia tradicional e o racional.

As principais características do lirismo simbolista eram:
Sinestesia, a descrição das sensações do mundo através de associação de palavras.
Sugestão, e não descrição.
Musicalidade, o uso de aliterações e de rimas exóticas para alcançar a máxima de Verlaine "A Música antes de qualquer coisa".
Transcendentalismo:a preferência para interpreta o mundo de maneira onírica, irreal e fantasiosa.
Subjetivismo, ênfase ao olhar individual como no romantismo, porém menos concentrado no sentimento amoroso e sim no subconsciente,no inconsciente, no sonho e no delírio.

Principais poetas simbolistas:

França, os poetas malditos:

Paul Verlaine

A LUA BRANCA

A lua branca
brilha no bosque.
De ramo em ramo,
parte uma voz que
vem da ramada.

Oh! bem-amada!

Reflete o lago,
como um espelho,
o perfil vago
do ermo salgueiro
que ao vento chora.

Sonhemos, é hora...

Como que desce
uma imprecisa
calma infinita
do firmamento
que a lua frisa.

É a hora indecisa...

Arthur Rimbaud

A ETERNIDADE

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Charles Baudelaire

CORRESPONDÊNCIAS

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

Stéphane Mallarmé

BRINDE

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.


Portugal:

Camilo Pessanha

ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Cesário Verde

MANIAS!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa

Brasil:

Cruz e Sousa

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta, clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos, retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço...

Alphonsus de Guimaranes

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

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