sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Homem Oco

Retrato do poetaT.S Eliot pelo pintor Wyndham Lewis.


Thomas Stearns ou simplesmente T S. Eliot foi uma das maiores vozes da poesia de língua inglesa no século XX. Nascido nos EUA, Missouri em 1888, mas radicalizado na Inglaterra, onde morreu em Londres 1965, dizia que sua poesia só era possível pela junção desses fatores. “Sua força emocional vinha desse encontro”, como ele dizia.

Ganhou em 1948 o prêmio Nobel e é considerado a lado de W.B Yates, Erza Pound e James Joyce os maiores inovadores da literatura inglesa do século passado.

Sua obra e dividida em três fases: A primeira constitui uma crítica geral à cultura da época; na segunda etapa, essa mesma crítica se volta para o passado histórico da Europa. O terceiro período, marcado por uma visão religiosa da existência.

Em o “O Homem Oco” , um de seus poemas mais famosos e mais bem acabados, vemos alegorias que refletem conflituosamente o seu lado religioso e o social. O poema é repleto de reflexões filosóficas e nele vemos referência direta a Dante Alighieri.



Os homens ocos
"A penny for the Old Guy"(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada.
Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor

Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
de olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbiasNeste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperançaDe homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
PorqueTeu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

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